8. MUNDO 24.4.13

VIZINHO INGOVERNVEL

Quem conseguir comandar uma Venezuela dividida ao meio? A oposio de Capriles no convence a populao mais pobre e o presidente eleito, Nicols Maduro, no tem a fora e o carisma de Chvez para se impor ao Pas
Pedro Marcondes de Moura 

A vitria sobre o oposicionista Henrique Capriles, no domingo 14, por uma magra diferena de 1,78 ponto percentual, ou 265 mil votos em cerca de 15 milhes vlidos, deu a dimenso do desafio que o presidente eleito, Nicols Maduro, ter pela frente: conseguir governar pelas vias institucionais uma nao radicalmente dividida. Aps a apurao dos votos, lderes e militantes da oposio na Venezuela organizavam protestos e se negavam a reconhecer a vitria do herdeiro de Hugo Chvez. J chavistas os acusavam de tentar sacramentar um golpe. No vamos reconhecer o resultado at a recontagem de cada um dos votos dos venezuelanos, um por um, declarou o candidato oposicionista, aps divulgado o resultado do pleito. Durante a semana, milhares de apoiadores de sua campanha protestaram pelas ruas da capital Caracas e de outras cidades importantes do pas exigindo a recontagem e denunciando o uso da mquina pblica na campanha pelo candidato chavista. Simpatizantes de Nicols Maduro tambm foram convocados a sair s ruas para defender o resultado da eleio, desencadeando uma srie de confrontos.

NAO DIVIDIDA - Conflito eleitoral na Venezuela deixou sete pessoas mortas e 60 feridas
 
Para conter aquilo que consideram uma tentativa de golpe de Estado, integrantes das foras de segurana do governo fizeram uso de gs lacrimogneo para dispersar a multido e prenderam militantes. Ungido como sucessor do lder bolivariano, Maduro elevou o tom, proibiu a realizao de uma grande marcha oposicionista na quarta-feira 17 e ameaou radicalizar a revoluo. Lideranas chavistas, como o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, chegaram a declarar que os protestos seriam uma tentativa de desestabilizar a democracia venezuelana apoiada pelo governo dos Estados Unidos e setores minoritrios das Foras Armadas. Sensato, depois de subestimar o regime chavista, Capriles acabou recuando na ideia da manifestao convocada para protestar contra alegadas fraudes na eleio e pressionar pela recontagem dos votos. No caiam nas provocaes do governo e tenham claro que nossa luta  democrtica, alertou Capriles.

OPOSITOR - Capriles recuou de protesto pela no recontagem dos votos, mas radicaliza discurso
 
Segundo analistas, os acontecimentos da ltima semana apenas evidenciam a diviso interna que vive a Venezuela, tornando o pas praticamente ingovernvel. Antes com seu carisma e liderana, Hugo Chvez conseguia manter uma maioria segura entre o eleitorado que lhe possibilitava governar sem dar ouvidos  oposio. Contava tambm com a liderana incontestvel em setores estratgicos, como as Foras Armadas, essenciais ao seu projeto de socialismo do sculo XXI. Maduro, no entanto, assiste  sua popularidade ruir rapidamente e para reverter esse processo ter de mostrar foras das quais parece no dispor. A Venezuela registra atualmente uma inflao acima dos 20% ao ano, apresenta crescente aumento de endividamento, ao mesmo tempo em que importa quase 90% do que consome. Tambm no h no horizonte nenhuma perspectiva de o petrleo voltar a cotaes que financiem os delrios do regime. O novo presidente at possui maioria no Congresso para tomar as medidas necessrias, mas, para preserv-las, analistas temem que ele acabe virando refm de outras alas do chavismo e tenda a acelerar as reformas bolivarianas.

Este movimento o colocaria mais ainda em rota de coliso com a oposio, convulsionando a nao. Os chavistas, primeiro, vo ter de entrar em um entendimento entre si e dar prioridade a medidas liberalizantes do que a outras revolucionrias, opina Carlos Eduardo Vidigal, professor da Universidade de Braslia (UnB). Para o especialista em Amrica Latina, as Foras Armadas sero o fiel da balana nessa disputa. Por outro lado, o candidato oposicionista Henrique Capriles mostra-se cada vez menos disposto a estender pontes para negociaes com o governo recm-eleito. Pelo contrrio. Parece apostar na radicalizao. Se quando enfrentou Hugo Chvez, na eleio presidencial em 2012, adotou um estilo paz e amor, numa tentativa de mostrar ao eleitorado que reconhecia o legado social criado pelo adversrio e ao qual pretendia dar continuidade, agora, ele no poupa ataques a Nicols Maduro e a outros expoentes do chavismo. Incorporou ao seu discurso falas sobre a ineficincia administrativa dos partidrios do comandante morto e como elas afetaram a prpria gesto da propagandeada Repblica Bolivariana. O acirramento das tenses, se levado a cabo, permitir a Maduro, afinal, mobilizar o chavismo sob a sua liderana. Como se v, no ser tarefa fcil governar uma Venezuela conflagrada.

